O que realmente aconteceu no Alentejo: os últimos meses de dor de Clara Pinto Correia, que deixou de se sentir amada em Estremoz
A escritora teria visto o seu contrato de arrendamento chegar ao fim, sofria com queixas dos vizinhos e mostrava a sua tristeza por ter de se mudar para a Casa do Artista. Os mais próximos revelam agora o caos emocional em que vivia a bióloga nos últimos meses, e que os fazem ter mais perguntas do que respostas em relação à morte da romancista, cuja partida continua envolta em mistério.Clara Pinto Correia morreu a 9 de dezembro, mas quais dois meses volvidos, ainda faltam respostas para explicar aquilo que pode estar para lá da paragem cardiorrespiratória, determinada na autópsia como causa da partida prematura da escritora. O Ministério Público do Tribunal de Estremoz abriu inquérito à morte da bióloga, falecida aos 65 anos de idade em casa, para determinar se esta ingeriu voluntariamente alguma substância, medicamentosa ou de outro cariz, que originou o seu trágico fim.
O corpo de Clara Pinto Correia foi encontrado sem vida caído em casa na manhã de 9 de dezembro pela empregada, Isa, que de imediato acionou os meios de socorro ligando para o 112. Como revelou à TV Guia Paulo Jorge Borralho, Comandante dos Bombeiros Voluntários de Estremoz, "nós fomos os primeiros a chegar ao local do falecimento, seguimos na íntegra o protocolo para PCR (Paragem Cardiorrespiratória), fizemos as manobras, apesar de a senhora apresentar rigidez, mas já nada havia a fazer. A equipa do INEM, que chegou pouco depois, declarou o óbito e ela foi levada para a morgue do Instituto de Medicina Legal (IML) de Évora, onde foi autopsiada".
No entanto, para aqueles que privavam com Clara, as perguntas sucedem-se e é difícil não pensar em outros cenários, quando a escritora se mostrava menos feliz nos últimos tempos, e tudo devido a uma série de acontecimentos que iriam mudar a sua vida em breve: a começar com o facto de o seu contrato de arrendamento em Estremoz não ter sido renovado, o que a obrigou a procurar soluções, que não queria: iria em breve ser institucionalizada na Casa do Artista.
"Acho que foi a senhoria que não a queria mais aqui. Ela terminou o contrato, ou queria terminar o contrato com ela, e queria pô-la fora. O que agravou tudo foi um incêndio que a Clarinha teve ali em casa há dois anos e por causa do cão Sebastião", contou à TV Guia Maria José, coproprietária com o marido Manuel de uma oficina de estofador em Estremoz, episódio confirmado pelo comandante dos bombeiros, que teve uma equipa sua a combater há dois anos, no inverno, as chamas de um incêndio provocado por uma salamandra na sala da antiga investigadora e professora universitária. Esta estava ausente do lar quando o fogo deflagou.
No Alentejo, Clara viveria com uma reforma de pouco mais de 700 euros, proveniente dos Estados Unidos, onde deu aulas, e contava também com o apoio incondicional das três irmãs, que a ajudavam financeiramente. "Ela disse-me que as irmãs é que lhe pagavam a renda da casa. Estava sempre a elogiar as irmãs, falava muito delas, em especial da Margarida, que ela adorava."
No entanto, apesar de inicialmente se ter sentido acarinhada, no Alentejo, com o tempo começaram a surgir problemas, com várias queixas dos vizinhos. "As pessoas que moravam no prédio ao lado não dormiam noites inteiras por causa do cão. Ele ladrava mais quando a via aflita ou sentia que ela estava doente ou que ela estava a dormir demais. E agora estava morta e ele não ladrou, já viu?! Quase não ladrou agora e das outras vezes ladrava que parecia que estava a pedir socorro para ela", recorda Maria José, que acrescenta o facto de os vizinhos embirrarem com o cão de raça Rafeiro Alentejano de grande porte que Clara Pinto Correia soltava para ir à rua sem trela e sem a sua supervisão: "Houve quem chamasse a polícia, mas o cão não fazia mal a ninguém. Tanto que ela ultimamente ia passear o cão à tarde e já o levava com uma trela. De verão, à tarde, ia passeá-lo."
As histórias do estilo de vida mais livre de Clara Pinto Correia correm nas bocas de muitos habitantes de Estremoz, que com ela se cruzavam, e que não a compreendiam. "Ela teve um carro e depois deixava-o em qualquer lado, foi multada algumas vezes e depois deixava a chave do carro ao meu marido para não ser multada. Era ele quem lhe arrumava o carro para evitar problemas", relembra Maria José, que ainda se recorda do serões madrugada dentro que a amiga fazia a trabalhar. "Muitas vezes íamos dar com ela na cama porque estava doente, outras vezes estava a dormir durante todo o dia. Ela trabalhava muito de noite a escrever. Passava noites inteiras a escrever. Mesmo ela dizia-me que estava a noite inteira a escrever e depois dormia de dia. Uma vez combinou um almoço com um rapaz chamado Jorge e ele bateu-lhe à porta, tocou à campainha, ligou-lhe para o telefone e ela não atendia, estava ferrada a dormir porque esteve a noite toda a escrever."
Além de ser acompanhada por assistentes sociais nos últimos anos, Clara chamou muitas vezes os bombeiros porque não se sentia bem, e contava com o apoio de um técnico farmacêutico da Farmácia Godinho. Segundo uma colega deste, "a dona Clara falava muito da nossa farmácia. Às vezes à noite vinha conversar com o meu colega nesse turno e dizia que quando olhava pela janela da casa dela e via a cruz verde acesa ficava mais tranquila. Se lhe acontecesse alguma coisa, se se sentisse mal, tinha o anjo a quem recorrer."
A DOR DE IR PARA A CASA DO ARTISTA
O que estava a preocupar a bióloga e escritora nos últimos meses era a notícia de que teria de deixar a sua casa arrendada em Estremoz e ser, aos 66 anos – que faria a 30 de janeiro –, institucionalizada na Casa do Artista. "Ela não estava feliz de se ir embora... "Ela, no final de janeiro, ia para a Casa do Artista. Disse-me que as irmãs a tinham metido na Casa do Artista", avança a vizinha e confidente. A TV Guia contactou a Casa do Artista e confirmou que Clara Pinto Correia teve uma reunião, semanas antes de morrer, com Paula Trindade, diretora técnica da conhecida instituição de apoio aos artistas, e que se preparava para ser utente da mesma.
"Ela era muito feliz aqui, andava à vontade dela para todo o lado. Há quem diga que ela não era feliz, mas era. A Clara gostava de viver... Ela agora estava triste era de se ir embora. Ela nunca me disse, mas acho que a senhoria quis que saísse porque teve um fogo na casa há dois anos. As assistentes sociais estavam sempre de olho nela. Ligavam, não atendia, ligavam logo para nós. As assistentes sociais vinham aqui algumas vezes ver como ela estava. Tinham medo era do cão. Mas isso eram as assistentes sociais e a polícia, porque ele defendia a dona e não deixava ninguém chegar perto da cama dela", remata.