Entre rezas e campanhas: a vida íntima de André Ventura e da mulher, Dina
Quem é a mulher que aparece ao lado de André Ventura nos momentos-chave e desaparece quando os holofotes se acendem? A resposta passa pela fé católica que une o casal e por uma relação construída na discrição.Qualquer que seja o desfecho das eleições presidenciais do próximo domingo, dia 8, uma certeza acompanha a corrida a Belém: o Palácio de Belém voltará a ter primeira-dama. Se André Ventura vencer António José Seguro, essa figura será Dina Nunes Ventura, a mulher que há quase uma década caminha ao lado do líder do Chega, discretamente, mas com uma presença constante, marcada por uma ligação profunda à fé católica que ambos assumem como pilar da vida em comum.
Filho de um “pai de direita e de uma mãe de esquerda”, André Ventura nasceu em Algueirão, Mem Martins, e viveu uma infância sem grandes marcas religiosas. Não era batizado, nem cresceu numa família particularmente praticante. Ainda assim, aos 14 anos, tomou uma decisão que o afastaria do percurso comum dos jovens da sua idade: ingressou no seminário. O despertar para a fé foi, segundo o próprio, um momento transformador, ao ponto de ponderar dedicar toda a sua vida à Igreja Católica. Acabaria por abandonar esse caminho, dividido entre a vocação religiosa e “outros amores mais terrenos”, como viria a admitir mais tarde.
Essa tensão entre fé e vida secular acompanhá-lo-ia nos anos seguintes. Já estudante de Direito na Universidade Nova de Lisboa – curso que terminaria com 19 valores, em 2005 –, Ventura apaixonou-se, teve relações marcantes e acabaria por conhecer Dina Nunes, fisioterapeuta de crianças. Conheceram-se ainda nos tempos universitários, mas não foi amor à primeira vista. “Na altura, eu tinha outra namorada”, recordou Ventura no livro 'Dias de Raiva' (2024), de Alexandre R. Malhado.
O encontro repetiu-se num contexto carregado de simbolismo. Ventura vivia então na residência de estudantes da paróquia de São Nicolau, na Baixa de Lisboa, para onde se mudara depois de abandonar o seminário do Externato de Penafirme, em A dos Cunhados, Torres Vedras. Frequentava com regularidade o café do pai de Dina, mesmo em frente à igreja. A fé, que nunca o abandonara por completo, voltava assim a cruzar-se com a sua vida pessoal.
Casaram-se a 18 de junho de 2016, numa cerimónia católica presidida pelo padre Mário Rui, precisamente na igreja de São Nicolau. O padrinho foi Rui Gomes da Silva, antigo ministro adjunto no Governo de Santana Lopes e hoje ministro-sombra do Chega para a Justiça. Um ano depois, a vida do casal mudaria de forma irreversível: Ventura candidatava-se à Câmara Municipal de Loures pelo PSD e iniciava um percurso político cada vez mais marcado pela polémica, que culminaria na fundação do Chega, em 2019.
Com a ascensão política do marido, Dina Ventura, fisioterapeuta de crianças num hospital de Lisboa há mais de uma década, passou a lidar com o lado mais duro da exposição pública. Ameaças verbais e episódios de hostilidade tornaram-se parte da sua rotina, em particular devido às posições de Ventura frequentemente associadas à extrema-direita. Foi também por isso que, depois de um período em que se fazia acompanhar por Dina para todo o lado, o líder do Chega optou por inverter o caminho e protegê-la da visibilidade excessiva.
Ainda assim, Dina acompanha Ventura sempre que pode, inclusive em contextos privados, longe das câmaras. No final de uma campanha para as eleições europeias, fez uma rara publicação política no Facebook, onde deixou transparecer o peso pessoal da vida pública do casal: “Uma campanha intensa, exaustiva e na qual houve dias que apenas nos cruzávamos um com o outro.”
Mas é na fé que o casal encontra o seu ponto de união mais visível. André Ventura fala abertamente do percurso na Igreja Católica, do tempo em que pensou ser padre e da forma como acredita ter descoberto, através da fé, o dom da comunicação. Dina partilha dessa vivência religiosa e nunca a escondeu. Na noite das eleições legislativas de 2024, ambos rezaram juntos na igreja onde se casaram, em frente às câmaras, uma imagem que passou quase despercebida, mas que sintetiza a relação que mantêm com a religião.
Sem filhos, uma decisão influenciada, em parte, pela carreira política de Ventura, vivem num apartamento no Parque das Nações, em Lisboa, propriedade de Dina. Seja qual for o resultado das presidenciais, a sua presença em Belém, caso se concretize, será a de uma primeira-dama discreta, moldada pela fé, pela reserva e por uma vida passada na sombra de um dos políticos mais polarizadores do País.