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Estalou um motim do Estabelecimento Prisional de Lisboa. Nada de grave, nem de anormal. Se alguma coisa surpreende, é a raridade de acontecimentos desta natureza nas cadeias portuguesas. Este, como diria o velho almirante Pinheiro de Azevedo, foi só fumaça. Nem guardas feridos, nem detidos feridos, nem entradas violentas para repor a ordem. Queimaram-se uns colchões, a papelada da praxe, e tudo voltou ao normal. Ficou tudo resumido a uma questão de vassoura. Varrer e limpar. Mais nada.
Desdramatizada a questão, voltemos a ela com outro olhar. Um estabelecimento prisional é, pela sua própria natureza, um centro de grandes tensões, da superdramatização das coisas mais banais, a o esforço diário para a construção de uma comunidade anti-natural, limitada, fechada, que depende menos da hierarquia das autoridades e muito mais da hierarquia que se estabelece entre os detidos.
Uma comunidade de conformados e de inconformados, de gente em revolta ou disponível para ela. De relações ambíguas. De trocas de favores cinzentos. De negócios clandestinos. É uma sociedade murada. Com horários rígidos, com vistorias, buscas e enclausurada. Dentro dessas paredes estão presos detidos e presos que são guardas prisionais.
Ser carcereiro deve ser uma das piores profissões do mundo. Ainda por cima muito mal pagos. No caso português, mal pagos, com falta de efectivos, e sem expectativa no que respeita às carreiras profissionais. Os crimes pelos quais estão detidos centenas de homens, no Estabelecimento Prisional de Lisboa, são incontáveis. O crime dos guardas prisionais é a sua profissão.
Quer os detidos, quer os guardas têm obrigações e direitos. No caso dos guardas, o direito à greve. Direito, segundo a notícias, levou à rebelião dos seus companheiros de encarceramento. Porque a greve diminui direitos, não permite a regularidade das visitas, não permite algumas iniciativas de descompressão, como acontece durante a quadra natalícia.
Porém, quem deve dirimir este conflito está calado. Em greve de palavras. Aliás, tornou-se um hábito. O governo deixou de falar. Seja sobre prisões, seja na greve dos enfermeiros, seja no caso de Tancos. É o governo ideal. Não quer saber do País. Não governa. Desgoverna e passa ao lado de vida. É o oportunismo mais cru.