O rebelde romântico: quem é o verdadeiro Luís Marques Mendes e porque é que a mulher nunca sai do seu lado
Quando a mulher subiu ao púlpito para lhe dizer “amo-te”, Luís Marques Mendes deixou ver o homem por detrás do político. Da advocacia aos corredores do poder, do comentário político em horário nobre à candidatura presidencial, o candidato da AD construiu um percurso feito de escolhas difíceis, riscos assumidos, mesmo quando isso o obrigou a estar mais afastado da família e dos filhos.“Todos os dias consegues surpreender com a tua generosidade e sentido de missão. Amo-te.” A declaração inesperada de Sofia, a mulher com quem partilha uma vida há mais de 50 anos, marcou um dos momentos mais emotivos da campanha presidencial de Luís Marques Mendes. O gesto, feito em público durante um almoço em Leiria, revelou um lado mais íntimo do candidato apoiado pelo PSD e pelo partido do Governo liderado por Luís Montenegro, um homem habituado ao lado mais frio da análise política, mas profundamente ligado à dimensão familiar.
“Estou muito sensibilizado e agradeço. Estou muito grato”, confidenciou Marques Mendes, para quem a vida pessoal nunca foi um acessório da carreira pública. “Não escondo a família, mas também não a exponho por tática política. Somos assim na vida, com naturalidade”, sublinhou, em entrevista à FLASH!, neste verão. O casamento com Sofia, iniciado nos dias imediatamente a seguir ao 25 de Abril de 1974, é descrito pelo próprio como um percurso feito de “harmonia e tranquilidade”, valores que considera tão resistentes quanto os próprios valores de Abril.
A história política de Luís Marques Mendes começou cedo, mas poderia ter seguido outro rumo. Aos 28 anos, recusou por duas vezes o convite de Aníbal Cavaco Silva para integrar o Governo. “Não foi nem coragem nem desprendimento. Foi natural”, explica. “Tinha uma vida estável no Norte, fazia advocacia, não tinha filhos. A mudança para Lisboa era uma mudança radical, pessoal e profissional.” Aceitou à terceira tentativa, mais pela insistência de Cavaco Silva do que por ambição pessoal. “Nunca imaginei que alguém insistisse duas vezes para que eu fosse para o Governo. Era um desafio cheio de riscos.”
O risco transformou-se numa década de governação intensa. “Os primeiros dez anos foram de uma intensidade brutal”, admite. E esse período deixou marcas. “Tenho pena de não ter acompanhado mais os meus filhos nessa fase. A vida governativa desvaloriza inevitavelmente outras funções.” Sem dramatizar, reconhece o papel decisivo da mulher: “A Sofia substituiu-me na perfeição. Em vários momentos fez de mãe e fez de pai.”
A política tornou-se, então, uma presença permanente. “Até aos 28 anos tive uma intervenção política esporádica. A partir daí foram 22 anos consecutivos de política nacional”, recorda. Governo, Parlamento, liderança parlamentar – “o cargo que mais gostei de desempenhar” – e liderança partidária. Se pudesse voltar atrás, não mudaria o essencial. “Não me arrependo de nada de estrutural que tenha feito. As escolhas foram duras, mas foram conscientes.”
O afastamento da vida política, aos 50 anos, foi mais um choque numa vida marcada por mudanças sucessivas. “A vida faz-se de choques”, reflete. “Uns mais positivos, outros mais difíceis, mas são desafios.” Durante 17 anos, viveu uma rotina mais tranquila, com tempo para viajar, ler e cuidar do corpo. “O desporto é indissociável da minha vida”, afirma, mesmo tendo trocado modalidades mais exigentes pelo ginásio, por razões físicas. Os 68 anos de idade obrigam a alguma parcimónia no esforço físico.
A DECISÃO DE CANDIDATAR-SE À PRESIDÊNCIA E OS FILHOS "VACINADOS" DA POLÍTICA
O regresso, agora como candidato à Presidência da República, foi tudo menos impulsivo. “Foi uma reflexão longa, de um ano e meio”, revela. “Houve momentos em que recusava a ideia de uma candidatura.” A decisão final surgiu por um motivo claro: “Acho que, com a experiência que adquiri ao longo da vida, posso ser útil ao País.” Num contexto internacional instável e num país “profundamente dividido e polarizado”, acredita que “a experiência política conta” e pode evitar erros com consequências graves.
Pai de três filhos – João Pedro, Ana e Miguel – que optaram por ficar longe da política – “talvez por efeito vacina”, brinca – e avô assumidamente “babado” de sete netos, Marques Mendes vive hoje uma fase mais contemplativa. “Sou hoje um avô mais presente do que fui pai em alguns momentos”, reconhece. “Estou a compensar falhas do passado, mas sobretudo a desfrutar de um estatuto extraordinário.”
Nos últimos 12 anos, Luís Marques Mendes tornou-se também uma presença habitual nas noites de domingo dos portugueses, como comentador político na SIC. Ao lado de Clara de Sousa, com quem partilhou o espaço de análise durante a maior parte desse período, criou uma nova relação com os portugueses. “Ajudou-me imenso durante todos esses anos”, reconhece, sublinhando a admiração profissional pela jornalista do canal de Paço de Arcos, a quem continua a apontar como “uma grande profissional, do melhor que há”. A saída desse papel mediático foi, admite, um novo choque. “Nos primeiros tempos senti um vazio”, confessa, embora sublinhe que, como em tantas outras mudanças da sua vida, acabou por se adaptar, transformando mais uma transição num novo ponto de partida.
Luís Marques Mendes entra nesta corrida presidencial com a bagagem de décadas de política, o apoio do PSD e uma leitura experiente do País. Mas entra também com uma narrativa pessoal assumida, onde o amor, a família e o sentido de missão se cruzam com a vida pública. Como ele próprio resume, sem dramatismo: “A vida é feita de riscos. Sempre disse isso aos outros. Agora, limito-me a dar o exemplo.”