'
The Mag - The Daily Magazine by FLASH!

O novo 'Chicão': a reinvenção de um político que cresceu com as derrotas e ajusta contas com o passado, sem abdicar dos valores de sempre

O ex-líder do CDS/PP, Francisco Rodrigues dos Santos, revisita derrotas, confronta divisões internas e fala sobre a transformação pessoal e política que o afastou de rótulos. Entre vitórias silenciosas, aprendizagens com fracassos e o ajuste de contas com o passado, garante que nunca abandonou a base humanista que sempre o guiou: humanismo, dignidade e defesa dos mais vulneráveis permanecem como sua bússola.
Hélder Ramalho
Hélder Ramalho
17 de fevereiro de 2026 às 17:56
Francisco Rodrigues dos Santos revê percurso político e pessoal
Francisco Rodrigues dos Santos revê percurso político e pessoal Foto: Instagram

Francisco Rodrigues dos Santos, 37 anos de idade, já não é apenas o jovem líder combativo que marcou uma geração no CDS/PP. Hoje, afastado da liderança partidária e sentado na cadeira de comentador político, assume uma mudança que surpreende muitos: “Já não me defino como de direita”.

A frase não é apenas mais um soundbite, como os muitos de que tem sido autor. É antes o reflexo de um processo interior de mudança. O antigo líder centrista admite que os últimos anos o obrigaram a repensar convicções, a revisitar posições e a confrontar-se com os próprios limites. O estudo da Psicologia foi decisivo nessa transformação. “Saí da bolha”, confessou, explicando que passou a olhar para temas fraturantes com outra lente, mais humana, mais empática, menos dogmática.

Popularizado como “Chicão”, construiu um percurso político precoce e intenso. Entrou na Juventude Popular em 2007, destacou-se pela preparação e capacidade oratória e rapidamente ascendeu à liderança da estrutura. Mais tarde, assumiu os destinos do CDS/PP, num dos momentos mais exigentes da história recente do partido. Pelo caminho, acumulou reconhecimento: a revista Forbes incluiu-o na lista “30 under 30”, distinguindo-o como um dos jovens mais brilhantes e influentes da Europa nas áreas do Direito e da Política.

Francisco Rodrigues dos Santos é casado com Inês Guerra Vargas
Francisco Rodrigues dos Santos é casado com Inês Guerra Vargas Foto: Instagram

Mas o protagonismo trouxe também desgaste. A pressão da liderança, as críticas internas e externas, os debates ideológicos duros. Francisco Rodrigues dos Santos passou de rosto da “nova direita” a figura que hoje se posiciona mais ao centro, ancorado no que descreve como um “centrismo humanista”.

ENTRE O PASSADO E O PRESENTE

Esta terça-feira, no 'Dois às 10', justificou o percurso que o trouxe até aqui: “O passado é referência mas não é residência. Permite explicar muita coisa do nosso percurso e das nossas experiências mas não nos captura nem nos torna reféns dele.”

Assume-se “um bocadinho epicurista”. Explica que não vive as vitórias de forma exaltada. “Tudo aquilo de bom que me acontece eu entrego-me de forma desapaixonada (…) não celebro muito as vitórias.” Já as derrotas, essas, transformam-se em matéria-prima para crescimento. “Procuro aprender com elas e orgulho-me em tudo o que fiz na exata medida em que pus tudo aquilo que sou nas minhas ações (…) nunca traí os meus valores nem a minha consciência.” Entre sucesso e fracasso, diz, constrói-se identidade: “É na conjunção destas duas realidades que vamos delapidando a pessoa que somos.”

AJUSTE DE CONTAS COM O PASSADO

Sobre a pesada derrota de 2022, que deixou o CDS fora da Assembleia da República, surpreende ao confessar que o primeiro sentimento “foi uma grande sensação de alívio.” E recorre a uma metáfora dura: “O fogo amigo também mata.” Recorda divisões internas e resistência à renovação: "Os principais oponentes que eu tive em congresso, quando eu venci a eleição, disseram que iriam acabar comigo nem que para isso precisam de destruir o próprio partido."

A carregar o vídeo ...
'Chicão' apanha valente susto com sismo da Madeira

"Senti que havia um certo corporativismo no partido, uma linha que já vigorava há mais de 20 anos em que eram sempre os mesmos a suceder a lugares diferentes, e que houve uma lógica orgânica, reativa, de impedir que houvesse renovação para manutenção e preservação de lugares, eu era uma pessoa que queria imprimir uma nova energia no partido, apresentar um novo friso de protagonistas, e transportar os valores do partido para uma certa atualidade", aponta, sem escamotear responsabilidades: “Claro que senti a responsabilidade, e por isso fui consequente e me demiti.”

Recusa, no entanto, uma leitura simplista do fracasso. “Se foi por causa da minha liderança? Acho que não. Foi uma tempestade perfeita.” Um cruzamento entre clima interno e conjuntura política que, no seu entender, ditou o desfecho.

A DEFESA DOS VALORES DEMOCRÁTICOS E OS RECADOS

Francisco Rodrigues dos Santos citou Ortega Y Gasset para justificar a mudança: "Mudar certas ideias é um sinal de inteligência, mudar de valores é um sinal de perda". "Eu não mudei os meus valores. Essa é a minha base. Há um espaço político, que hoje em dia se situa no centro político, que faz uma ocupação simbólica dos grandes flagelos sociais: a pobreza, a exclusão, a dignidade da pessoa, a defesa dos mais vulneráveis, da família, o combate à precaridade. É aí que eu estou e sempre estive."

 “Sempre me afirmei como um democrata cristão.” Fala de humanismo, dignidade da pessoa, preferência pelos mais vulneráveis. E deixa uma frase que resume o seu posicionamento atual: “Prefiro perder uma eleição em democracia do que perder a democracia numa eleição. Sou um democrata.”

Francisco Rodrigues dos Santos e Inês com o filho, José Pedro, que tem agora 3 anos
Francisco Rodrigues dos Santos e Inês com o filho, José Pedro, que tem agora 3 anos Foto: Instagram

Francisco mantém firme a defesa dos valores democráticos e não renega o passado. Mas assume que a vida lhe mostrou que, em alguns temas, estava errado. Uma admissão rara na política e talvez o sinal mais evidente de maturidade. A jornalista Mafalda Anjos, que recentemente o entrevistou no seu espaço de entrevista 'Inventário Pessoal', na RTP, descreveu-o como alguém que não perdeu valores fundamentais, mas que ganhou profundidade. “Não foi ele que mudou, foi o mundo que resvalou para sítios muito estranhos.”

Saber mais sobre

você vai gostar de...