Francisco Rodrigues dos Santos, 37 anos de idade, já não é apenas o jovem líder combativo que marcou uma geração no CDS/PP. Hoje, afastado da liderança partidária e sentado na cadeira de comentador político, assume uma mudança que surpreende muitos: “Já não me defino como de direita”.
A frase não é apenas mais um soundbite, como os muitos de que tem sido autor. É antes o reflexo de um processo interior de mudança. O antigo líder centrista admite que os últimos anos o obrigaram a repensar convicções, a revisitar posições e a confrontar-se com os próprios limites. O estudo da Psicologia foi decisivo nessa transformação. “Saí da bolha”, confessou, explicando que passou a olhar para temas fraturantes com outra lente, mais humana, mais empática, menos dogmática.
Popularizado como “Chicão”, construiu um percurso político precoce e intenso. Entrou na Juventude Popular em 2007, destacou-se pela preparação e capacidade oratória e rapidamente ascendeu à liderança da estrutura. Mais tarde, assumiu os destinos do CDS/PP, num dos momentos mais exigentes da história recente do partido. Pelo caminho, acumulou reconhecimento: a revista Forbes incluiu-o na lista “30 under 30”, distinguindo-o como um dos jovens mais brilhantes e influentes da Europa nas áreas do Direito e da Política.
Mas o protagonismo trouxe também desgaste. A pressão da liderança, as críticas internas e externas, os debates ideológicos duros. Francisco Rodrigues dos Santos passou de rosto da “nova direita” a figura que hoje se posiciona mais ao centro, ancorado no que descreve como um “centrismo humanista”.
ENTRE O PASSADO E O PRESENTE
Esta terça-feira, no 'Dois às 10', justificou o percurso que o trouxe até aqui: “O passado é referência mas não é residência. Permite explicar muita coisa do nosso percurso e das nossas experiências mas não nos captura nem nos torna reféns dele.”
Assume-se “um bocadinho epicurista”. Explica que não vive as vitórias de forma exaltada. “Tudo aquilo de bom que me acontece eu entrego-me de forma desapaixonada (…) não celebro muito as vitórias.” Já as derrotas, essas, transformam-se em matéria-prima para crescimento. “Procuro aprender com elas e orgulho-me em tudo o que fiz na exata medida em que pus tudo aquilo que sou nas minhas ações (…) nunca traí os meus valores nem a minha consciência.” Entre sucesso e fracasso, diz, constrói-se identidade: “É na conjunção destas duas realidades que vamos delapidando a pessoa que somos.”
AJUSTE DE CONTAS COM O PASSADO
Sobre a pesada derrota de 2022, que deixou o CDS fora da Assembleia da República, surpreende ao confessar que o primeiro sentimento “foi uma grande sensação de alívio.” E recorre a uma metáfora dura: “O fogo amigo também mata.” Recorda divisões internas e resistência à renovação: "Os principais oponentes que eu tive em congresso, quando eu venci a eleição, disseram que iriam acabar comigo nem que para isso precisam de destruir o próprio partido."
"Senti que havia um certo corporativismo no partido, uma linha que já vigorava há mais de 20 anos em que eram sempre os mesmos a suceder a lugares diferentes, e que houve uma lógica orgânica, reativa, de impedir que houvesse renovação para manutenção e preservação de lugares, eu era uma pessoa que queria imprimir uma nova energia no partido, apresentar um novo friso de protagonistas, e transportar os valores do partido para uma certa atualidade", aponta, sem escamotear responsabilidades: “Claro que senti a responsabilidade, e por isso fui consequente e me demiti.”
Recusa, no entanto, uma leitura simplista do fracasso. “Se foi por causa da minha liderança? Acho que não. Foi uma tempestade perfeita.” Um cruzamento entre clima interno e conjuntura política que, no seu entender, ditou o desfecho.
A DEFESA DOS VALORES DEMOCRÁTICOS E OS RECADOS
Francisco Rodrigues dos Santos citou Ortega Y Gasset para justificar a mudança: "Mudar certas ideias é um sinal de inteligência, mudar de valores é um sinal de perda". "Eu não mudei os meus valores. Essa é a minha base. Há um espaço político, que hoje em dia se situa no centro político, que faz uma ocupação simbólica dos grandes flagelos sociais: a pobreza, a exclusão, a dignidade da pessoa, a defesa dos mais vulneráveis, da família, o combate à precaridade. É aí que eu estou e sempre estive."
“Sempre me afirmei como um democrata cristão.” Fala de humanismo, dignidade da pessoa, preferência pelos mais vulneráveis. E deixa uma frase que resume o seu posicionamento atual: “Prefiro perder uma eleição em democracia do que perder a democracia numa eleição. Sou um democrata.”
Francisco mantém firme a defesa dos valores democráticos e não renega o passado. Mas assume que a vida lhe mostrou que, em alguns temas, estava errado. Uma admissão rara na política e talvez o sinal mais evidente de maturidade. A jornalista Mafalda Anjos, que recentemente o entrevistou no seu espaço de entrevista 'Inventário Pessoal', na RTP, descreveu-o como alguém que não perdeu valores fundamentais, mas que ganhou profundidade. “Não foi ele que mudou, foi o mundo que resvalou para sítios muito estranhos.”