Jorge Jardim Gonçalves é uma das personalidades mais influentes do País, como empresário e banqueiro, fundador do Banco Comercial Português (BCP), presidente do Banco Português do Atlântico e do Banco Comercial de Macau. Começou por ser engenheiro civil mas foi na banca que desempenhou funções importantes, tanto em Portugal como no estrangeiro. Jardim Gonçalves teve uma passagem por Madrid após a Revolução do 25 de Abril de 1974. Na capital espanhola trabalhou no Banco Popular Espanhol. Regressou a Portugal em 1977.
Ao seu lado teve a mulher, Maria da Assunção Almeida Osório de Vasconcelos, a companheira de vida que conheceu em 1957 numa estação de comboios no Porto, apesar de ela viver em Lisboa na altura. Casaram-se em 1962, em Angola, onde Jardim Gonçalves cumpria serviço militar num território em guerra. A vida do casal ficou marcada por momentos felizes mas também por episódios dolorosos, como a perda de um filho e a morte dos irmãos de Jardim Gonçalves.
Aos 90 anos de idade, Jorge Jardim Gonçalves não esquece o seu grande amor. Durante a conversa com Luís Osório, o antigo banqueiro recordou precisamente esses anos mais difíceis, quando Maria da Assunção Vasconcelos deixou tudo na metrópole para estar ao seu lado em Angola.
"Queriam que festejasse os 90 anos com a minha família, não me apeteceu nada. Não me apeteceu porque a Assunção não celebra os seus 90, morreu com os 80 e alguns. Não a tenho, vou festejar o quê? Não faz sentido", justificou Jardim Gonçalves. "Foi uma companhia de valentia. Foi ter comigo a Luanda [Angola] e eu esperava já não voltar à zona de intervenção de guerra mas, afinal, fui e ela ficou sete meses em Luanda, sem irmãos…", recordou o ex-banqueiro.
Em Luanda, o casal partilhava um pequeno apartamento, na marginal da capital angolana. E era à janela que Maria da Assunção ficava a aguardar pela chegada do companheiro, temendo o pior. Terão sido os "piores dias" como chegou a confidencar a Luís Osório. "E uma vez não cheguei mesmo. (...) A Assunção realmente entregou-se, era professora do liceu, tinha todas as condições para ir para uma universidade lá – depois foi professora universitária aqui – mas interrompeu-se todo esse percurso para estar comigo na guerra, mesmo que eu estivesse fora do apartamento, na marginal", recordou Jardim Gonçalves.
Um apartamento modesto, com menos que o essencial. "Não tínhamos frigorífico e estávamos em África. Mas tínhamos um fogão, e tínhamos um divã e tínhamos uma mesinha redonda e umas cadeiras de palha, feitas pelos nativos, confortáveis... e tudo tivemos", confirmou o antigo banqueiro.