Quem é Ana Abrunhosa, o rosto da resistência de Coimbra em dias de medo e incerteza
“Tenho muito medo da segurança.” A frase de Ana Abrunhosa ecoou numa madrugada marcada por cheias, evacuações e o colapso de um viaduto na A1. Mas quem é a mulher que está a liderar Coimbra num dos momentos mais críticos da sua história recente?Num dos momentos mais críticos que Coimbra viveu nos últimos anos, é Ana Abrunhosa quem tem estado na linha da frente. A presidente da Câmara Municipal da Cidade dos Estudantes tem travado uma verdadeira batalha contra as consequências do mau tempo que assola a região, com chuvas intensas e cheias no Mondego a provocarem o rebentamento de um dique e a obrigarem à evacuação de milhares de pessoas.
O final do dia de quarta-feira, 11 de fevereiro, ficou marcado pelo colapso parcial do tabuleiro de um viaduto da A1, uma ocorrência que a autarca admite que receava. “Tenho muito medo da segurança. Há infraestruturas que temos de analisar”, afirmou na RTP, alertando que o problema não se esgota naquele ponto da autoestrada. “Coimbra e muitos municípios estão com problemas gravíssimos nas estradas, nas pontes. Podem não ter esta visibilidade, mas são igualmente graves”, sublinhou.
Segundo explicou, o dique cedeu por baixo da ponte, o que levou a Proteção Civil a encerrar imediatamente o trânsito na principal autoestrada que liga Lisboa e Porto. “A água foi escavando a terra e houve uma parte do tabuleiro que ficou sem sustentação e que ruiu”, relatou, descrevendo um cenário de elevada complexidade técnica e risco acrescido. Para a autarca, o sucedido confirma que o concelho enfrenta “uma situação grave” e exige máxima responsabilidade coletiva.
O apelo à população tem sido insistente. Horas antes da rutura no dique de Casais, cinco trabalhadores agrícolas recusaram abandonar a zona de risco e acabaram por ter de ser resgatados de helicóptero. “Os nossos avisos, os avisos da proteção civil, não são feitos de forma leviana”, frisou Ana Abrunhosa, reforçando a importância do cumprimento rigoroso das orientações das autoridades.
Economista de formação, nascida em Angola e criada na Beira Alta, vive em Coimbra desde os 18 anos. Licenciou-se, fez mestrado e doutoramento na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, onde iniciou a carreira académica em 1995, dedicando-se às áreas da inovação e do desenvolvimento regional. Ao longo do percurso, liderou projectos científicos, presidiu à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro e coordenou o processo de reconstrução das zonas afectadas pelos incêndios de outubro de 2017.
Em 2019, integrou o Governo como Ministra da Coesão Territorial, cargo que exerceu até abril de 2024. Foi depois eleita deputada por Coimbra, tendo presidido à Comissão Parlamentar de Saúde. Em 2025, regressou à política local como candidata à presidência da Câmara Municipal de Coimbra, liderando a coligação Avançar Coimbra (PS, Movimento Cidadãos por Coimbra, LIVRE e PAN), com a promessa de devolver protagonismo à cidade que considera sua.
“Tal como muitos que hoje vivem em Coimbra, também eu vim para esta cidade aos 18 anos. Aqui estudei, aqui comprei casa, aqui construí a minha vida”, tem afirmado, evocando a ligação emocional à cidade onde é professora universitária e onde formou gerações de alunos que hoje ocupam lugares de destaque em Portugal e no estrangeiro.
Pelo caminho enfrentou uma polémica que envolveu o nome do marido, António Trigueiros de Aragão, num caso de Justiça. O sócio chinês do marido da então ministra da Coesão Territorial, na empresa Thermalvet, foi condenado por corrupção ativa no processo dos Vistos Gold em junho de 2020. António e o pai Diogo Trigueiros de Aragão detinham 80% do capital social da empresa, e os restantes 20% pertenciam a Zhu Xiadong.
Agora, perante a força das águas e a fragilidade das infraestruturas, é essa ligação que se traduz numa liderança sob pressão máxima. Entre reuniões de emergência, coordenação com a Proteção Civil e contactos com o Governo, Ana Abrunhosa enfrenta um dos maiores testes da sua vida política.